sábado, 7 de abril de 2012

Léxico passional. Ou pisando com cuidado nas palavras

E ele que não gostava de ser cauteloso, agora estava ali, impotente e relegado ao segundo plano sentimental de G. Falara demais na noite anterior e na noite antes dessa. Embalado por seguidas doses de uísque e pelo papo mole dos falsos amigos, C. estragou tudo com exímia maestria. "Você é isso e aquilo outro", vociferava contra a parceira sem medir conseqüências. G., cansada de ouvir seguidamente queixas e acusações infundadas, fez suas malas e sem sequer bater a porta, demonstrando uma calma irritante aos ouvidos de C., foi-se. Ela e o cachorro, H. Para ele, mais umas doses anestésicas e cama.

E quando acordou, C. em pânico. Veio a sensação de ter feito uma tremenda merda. A perda de memória recente causada pelo álcool atrapalhava. Voou da cama e tentou consertar as coisas, "linda, juro que esta foi a última....", ao que, firme e gélida, G. bocejou antes de desligar o celular. C. entrou em depressão, procurou ajuda - nunca o boteco da esquina faturou tanto - e se entregou aos prazeres do sexo delivery e virtual. G. nem desconfiava da nova e agitada vida de seu ex-conjugê.

G. conhecera alguns homens neste meio tempo, alguns requintados e pernósticos, outros brutos e pouco higiênicos, uma leva de cultos e inviáveis econômicos. C. era um pouco de cada; podia seduzir uma mulher num solo de sax, conquistá-la numa cama selvagem, esgrimir um poema, assim de viés. C. estava nas últimas quando recebeu uma carta de G. Uma carta sim, de papel da melhor qualidade, a mão, caneta tinteiro. "Sinto saudades. Sinto que devo te perdoar. Sinto que você também não quer mais esta distância constrangedora".

C. leu e sorriu. Pôs-se aprumado e jogou fora todo o lixo acumulado nos meses de solidão e prevaricações. Sentou-se à mesa da sala de leitura e redigiu em sua velha máquina de escrever uma carta de resposta. "Querida G., sinto que não posso mais tê-la. Sou escravo das palavras mal empregadas e, portanto, um grande equívoco verborrágico. Sinto um amor inenarrável por você - o maior de todos - mas temo não saber as horas certas de pisar com cuidado nas palavras. Por isso, estou indo embora."

G., acuada pela carta, tentou, em vão, socorrer C. Ao chegar no antigo apartamento - onde vivera os grandes momentos de sua vida - G. encontrou C., metamorfoseado num livro empoeirado.

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