Estava abrindo a porta de casa quando ouvi o telefone tocar.
Não deu tempo de atendê-lo e não possuía secretária eletrônica àquela
época, muito menos um identificador de chamadas. Considerava estes
recursos inibidores de surpresas, o que não condizia com a minha
maneira de encarar a vida. Mesmo assim, odiava quando este tipo de
coisa acontecia – sempre fora extremamente curioso – e uma situação
assim flagelava o meu nada ortodoxo humor.
Quem poderia ter me ligado num sábado à noite, num horário
atípico, nem tão tarde, nem tão cedo? Atravessava um momento de
pouco contato social, por opção, portanto, seria bastante inesperado
que uma pessoa fora do círculo familiar me procurasse em tais
circunstâncias. Claro, só poderia ser meu pai, procurando algum tipo
de conversa fiada – ponderei em voz alta, tentando desestimular algum
passador de trotes.
Desdenhei do insólito imbróglio – não considerei outra hipótese,
havia sido o meu pai –, larguei a sacola de compras no balcão da
cozinha e me dirigi ao banheiro. Necessitava desesperadamente de um
bom banho, para depois curtir uma não tão agradável insônia, talvez
fruto da inquietude que me acometia nos últimos dias. A tentativa de me
isolar estava interferindo negativamente no trabalho e o ultimato já havia
sido dado. Melhore... Senão, adeus. Não dei muito atenção à ameaça,
afinal, eu era superior às palavras intimidadoras. Até então.
E o inesperado – ou o esperado – aconteceu. Foi só desligar o
chuveiro e escutei o toque do infernal aparelho. Não se tratava de umas
dessas ironias baratas do cotidiano do homem comum. Algo de muito
errado me sondava. Atabaolhado, deixei cair a toalha e completamente
encharcado me precipitei pelo corredor que dava até a sala. Tudo em
vão. Saquei o fone do gancho e perdi levemente a compostura. “Alô,
alô, quem fala?” E do outro lado da linha, um silêncio requintado,
provocador, testando meus frágeis nervos. Poucos segundos depois,
desligou, quase me sufocando de aspereza.
O que isso tudo significava? O caminho mais fácil seria ligar para
o meu pai e ao menos eliminar essa possibilidade. Mas o desconforto do
evento me causava um prazer libertador, mesmo que inebriantemente
temerário. Alguns chamam isso de sadismo, considero mais justo
classificar meu sentimento como algo mais próximo de “lúbrico”. Achei
por bem ir adiante com o jogo de gato e rato, agindo naturalmente,
fingindo ignorar o aparelho telefônico, pálido em sua simplicidade e
prática incumbência. Estratégia pura, claro... No meu íntimo, ansiava por mais uma ligação.
Determinei que na próxima chance, aguardaria ao menos quatro
toques – número adequado, capaz de impor respeito – e depois daria
o bote. Mas o que diria? Hesitei sobre a possibilidade de me manter
em silêncio, destilando o troco na mesma moeda, mas me convenci
de que esta era a decisão mais correta. Sim, eu também, de alguma
forma, causaria desconforto ao interlocutor. Um diálogo mudo. Não
se trata de loucura, na verdade, seria interessante, mais observação,
menos falatório. Através de um suspiro, do respirar do outro, de emanar
ao longo dos cabos telefônicos uma energia contida, aspirando por
liberdade, o “diálogo” se estabeleceria. Duas pessoas à distância,
meticulosamente se estudando. Em busca da verdade, de um perdão,
talvez?
Às duas e pouco da manhã, eu permanecia absolutamente
absorto, idealizando o fato de que alguém estava disposto a me levar
ao limite da sanidade. Proporcionei algumas oportunidades para que o
telefone tocasse, ao me ausentar da sala. Sempre atento, obviamente.
Mas minhas tentativas foram todas em vão, como se o interlocutor
misterioso tivesse conhecimento preciso de minha emboscada. E
eu, com certeza, não conseguia de forma alguma me desvencilhar
mentalmente, emocionalmente do enredo já ali traçado.
Meu coração acelerou ao extremo. O tilintar do aparelho se fez
presente e me despertou bruscamente. Sim, havia adormecido no sofá
da sala, como uma presa incapaz de fugir dos limites impostos pela
natureza. E o pior: quantos toques já tinham reverberado pelo cômodo,
interrompendo aquele cenário árido? Frustrado, atestei: havia perdido a
primeira batalha, mesmo com todos os subterfúgios utilizados para não
ser surpreendido. Mesmo assim, não esmoreci.
Puxei o aparelho do gancho com a mão trêmula e, prontamente,
percebi que isso não poderia se estender pelo resto do corpo – indicaria
precisamente a prova de que eu não era digno de encarar a força
presente do outro lado. Respirei fundo e acomodei, sem estardalhaço,
o auscultador junto ao rosto, evitando qualquer outra movimentação de
meus membros.
Permanecemos em silêncio; não sei precisar por quanto tempo.
Segundos, minutos, horas... Não importava mais, desde que o toque
do telefone se fizera presente pela primeira vez naquele dia. E então,
escutei o necessário, o primeiro sinal vital do meu interlocutor e depois
sua voz pouco potente. Uma respiração ofegante do outro lado,
impaciente e imprecisa, e impressionantemente familiar. “Alô, quem fala? Gostaria de falar com...”. Desliguei. Testei minha voz dialogando
com o espelho. E constatei, com ar triunfal, como minha reclusão
espontânea agira sobre o meu juízo.